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O lugar de Goethe no diálogo das culturas Prof. Dr. Jochen Golz (presidente da Goethe-Gesellschaft in Weimar) Com a fundação da Associação Goethe do Brasil, o número de associações Goethe ativas em todo o mundo elevou-se para trinta e sete. Há associações Goethe em todos os continentes. Muitas delas foram constituídas depois de 1990, após a queda dos chamados regimes socialistas. Isso vale para a Polônia e a República Tcheca, para a Hungria, Bulgária e Romênia, para os países do Báltico e para a Rússia, para os Estados do Cáucaso e para os do Extremo Oriente; um panorama completo das associações pode ser encontrado na homepage da Sociedade Goethe em Weimar (Goethe-Gesellschaft in Weimar). Em todos os lugares, ocorrem congressos e eventos literários; em todos os lugares, Goethe ganha espaço nas salas de aula de universidades bem como nas salas de aula de escolas. As associações Goethe na América do Norte e na Inglaterra são muito mais antigas, e a Sociedade Goethe Austríaca, antes Sociedade Goethe Vienense, já havia sido criada em 1878, e a Sociedade Goethe de Weimar, por sua vez, só em 1885. Em 2010, portanto, a Goethe-Gesellschaft in Weimar completará 125 anos, e nós celebraremos esse aniversário com um evento festivo a ocorrer no dia 19 de junho em Weimar e com uma conferência sobre a história das associações literárias, conferência essa a ser realizada entre os dias 10 e 12 de setembro. A Goethe-Gesellschaft in Weimar possui atualmente cerca de 3.200 participantes espalhados por 50 países da Terra, somados a cerca de 7.000 integrantes das 59 sociedades locais existentes na Alemanha. Mas chega de falar de números. Mais importante é a pergunta sobre a importância de Goethe na vida intelectual contemporânea. Seu prestígio no mundo intelectual é incontestavelmente enorme. Não é apenas uma questão de marca registrada o fato de os institutos voltados para a divulgação da cultura alemã no exterior levarem o nome de Institutos Goethe (Goethe Institute). Quando, no ano de 2000, uma comissão da Unesco viu-se encarregada de descobrir quais materiais presentes em arquivos da Alemanha deveriam ser incluídos na lista Memory of the world, os manuscritos de Goethe, mantidos no Arquivo Goethe-Schiller em Weimar, foram imediatamente e sem discussão escolhidos para isso. Também atualmente, Goethe pertence ao rol dos autores alemães mais traduzidos; o Fausto, o Werther e seus poemas representam para os tradutores, sempre e de novo, um desafio. No ano Goethe de 1999, a feira de livros de Frankfurt apresentou, sob o título “Goethe em mil línguas”, uma expressiva mostra especial com as traduções dos textos goethianos. Naquele ano comemorativo, a Goethe-Gesellschaft convidou os tradutores de Goethe para irem a Weimar participarem de um congresso próprio. No entanto, seria fácil demais discorrer somente a respeito do papel de Goethe na vida intelectual da atualidade. A pergunta precisa ser dirigida para a substância de sua obra. Hoje, freqüentemente, fala-se sobre um necessário diálogo internacional das culturas, e arrisca-se a tese de que Goethe pode imiscuir-se nesse diálogo de forma muito viva e que, nesse caso, cabe às associações e sociedades Goethe do mundo todo desempenhar um papel específico. Desde seus anos de juventude, o escritor abriu-se à riqueza das culturas estrangeiras, seja quando, ainda criança, observou o mundo dos guetos judaicos de Frankfurt, seja quando, mais tarde, descobriu o Antigo Testamento como um grande e poético documento da história da humanidade, ou quando, na casa dos pais, declamou um hino em homenagem a Shakespeare. Logo cedo, ingressaram em seu horizonte o Islã e o fundador dele, Maomé. O estudo sobre Winckelmann abriu os olhos do jovem escritor para as belezas da cultura antiga. Quando Goethe, em novembro de 1775, chegou a Weimar, já estava familiarizado com as mais importantes correntes intelectuais da Europa moderna e, igualmente, com as tradições das culturas européia e não-européias, já que estas lhe chegaram por meio dos testemunhos da arte e da literatura do Oriente antigo ou da Antiguidade. As Antiguidades grega e romana ofereceram o padrão-guia para aquelas obras goethianas que nós fazemos acompanhar pelo epíteto de clássicas. No entanto, nos anos posteriores a 1800, a percepção estética de Goethe alterou-se sob o signo de uma nova tolerância e receptividade. A poesia do Oriente entrou em seu campo de visão o mais tardar em 1814, e no diálogo criativo com a poesia persa e árabe nasceu o livro de poemas Divã Ocidental-oriental [West-östlicher Divan]. Além disso, Goethe tornou-se visivelmente consciente de sua própria importância histórica. Se o seu romance Os sofrimentos do jovem Werther foi um sucesso dentro e fora da Europa, sua fama cresceu ainda mais depois da publicação, em 1808, da primeira parte do Fausto. Quando os poemas sobre Helena, parte do Fausto II, vieram a público, Goethe percebeu, com autoconfiança, que eles haviam encontrado leitores em Edimburgo, em Paris e em Moscou. Tomando como exemplo o próprio êxito, Goethe descreveu o fenômeno de uma literatura mundial (Weltliteratur). Com o conceito de literatura mundial, Goethe designa um processo de trocas intelectuais entre os povos, processo esse tornado possível pela primeira vez através dos meios modernos de comunicação – o navio a vapor e a estrada de ferro – e que hoje se consuma com inimaginável rapidez. Esse processo deve ocorrer sob o signo da apreensão imparcial do que é estrangeiro, processo esse em cujo desenrolar os povos precisariam se conhecer melhor e, ao menos, conforme acrescentou Goethe com ceticismo, aprender a se respeitarem uns aos outros, já que não conseguem mesmo se tolerar mutuamente. Acima de tudo, porém, a concepção de Goethe garante que a troca intelectual e a mediação intelectual somente poderão realizar-se se o conhecimento do outro capacitar os homens à compreensão mútua e ao respeito mútuo. Literatura mundial é um conceito qualitativo, e não uma fórmula para a comunicação acrítica; um conceito que está a serviço da humanização de uma sociedade mundial formada por pessoas mais cultas e mais criteriosas. Toda história possui uma história precedente, e somente o conhecimento dessa história precedente permite-nos uma avaliação real da atualidade, somente isso garante nossa capacidade de dialogar. Citando Goethe: “Quem não sabe prestar contas / Dos últimos três mil anos, / Este permanece na escuridão, inexperiente, / Vive o dia a dia e nada mais” (Wer nicht von dreitausend Jahren / Sich weiß Rechenschaft zu geben, / Bleib im Dunkeln unerfahren, / Mag von Tag zu Tage leben). Goethe não apenas divulgou essas máximas em suas obras e cartas, como também as transpôs em ato na consumação da vida prática. E justamente em suas últimas décadas de vida, por meio de leituras e de visitantes, ele apropriou-se de uma quantidade incrivelmente grande de conhecimentos sobre o mundo. Viajantes como Alexander von Humboldt informavam-lhe sobre as regiões afastadas do mundo; a América do Sul fez-se presente a seus olhos por meio das visitas e dos relatos de Martius ou Eschwege. Recentemente, um moderno trabalho de pesquisa sobre Goethe, embebendo-se nas fontes, revelou o grau de contato dele com a cultura internacional de seu tempo. Contudo, ainda há muito a ser descoberto. Para a Associação Goethe em Weimar, o brilho de Goethe na cultura mundial é tanto um incentivo quanto um compromisso. Somente depois da queda da cortina de ferro, a Goethe-Gesellschaft in Weimar pôde fazer valer realmente seu caráter internacional, algo já previsto de forma expressa em seus estatutos desde 1967. A entidade mantém-se em contato produtivo com as associações Goethe existentes no mundo todo e, periodicamente, o Goethe-Jahrbuch (Anuário Goethe) registra na bibliografia referente ao autor os resultados das pesquisas goethianas realizadas em todo o mundo. Desde 1993, há um programa de bolsas em cujo âmbito recebemos, por ano, entre 10 e 12 bolsistas em Weimar; no ano de 2010, nós já poderemos dar as boas-vindas ao 250º bolsista. Um curso de verão, realizado sempre na segunda metade de agosto por germanistas destacados, reúne cerca de 25 estudantes universitários e pesquisadores de todo o mundo para participarem de discussões acadêmicas sobre Goethe. As plenárias da Goethe-Gesellschaft in Weimar, realizadas a cada dois anos na semana que se segue ao Pentecostes, são animadas reuniões para a discussão da pesquisa internacional em torno de Goethe e também um ponto de encontro para os presidentes das várias associações Goethe de outros países. No entanto, não apenas em Weimar Goethe constitui assunto para debates acadêmicos. Lembro-me com grande satisfação da Conferência sobre o Fausto realizada em 2008 em São Paulo; ela forma uma seqüência com as Conferências de Túnis e de Montreal, que se debruçaram sobre a influência da tragédia fáustica nas culturas não-européias. Com um apreço especial, lembro-me da conferência anual sobre Goethe realizada em 2009 pela Associação Goethe coreana e da conferência Goethe-Schiller ocorrida no final de abril de 2009 em Pequim, das quais pude participar. Agora também a Associação Goethe do Brasil desempenhará um papel nesse concerto de congressos e eventos. Eu gostaria de acrescentar mais uma coisa: é também um sinal da importância de Goethe para o diálogo entre as culturas o fato de que, desde 1999, jovens músicos de Israel e da Palestina toquem juntos sob a regência de Daniel Barenboim e sob o signo do Divã Ocidental-oriental. Anuncia-se assim um indício de esperança. Permitam-me concluir com versos goethianos do ano de 1827 que destacam de forma expressiva seu conceito de literatura mundial: De pólo a pólo, canções se renovam, |
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